Domingo, 14 de Junho de 2009

Na peugada de Vandermark...

(in DNMais, antigo suplemento do Diário de Notícias, 25.11.00)



A exemplo do que já acontecera por motivo das actuações de Ellery Eskelin no último Jazz em Agosto [2000], também agora, a propósito do concerto realizado no recente Guimarães-Jazz 2000 pelo grupo de Ken Vandermark, me pareceu mais adequado contornar os naturais limites de uma recensão crítica para o corpo do DN diário e deixar para o generoso espaço do DNmais uma análise mais profunda da música que o Vandermark 5 proporcionou aos que tiveram a fortuna de estar presentes na noite de 16 de Novembro no magnífico Auditório da Universidade do Minho.

Tanto mais que esta actuação  - a par das do quarteto de Steve Lacy-Roswell Rudd e do decateto de David Binney -  passou a inscrever-se na linha daquelas manifestações musicais que, no espaço de nove anos, melhor terão correspondido ao prestígio e às apostas de novidade deste festival.

 



Em primeiro lugar, o concerto de Vandermark e seus companheiros veio mais uma vez comprovar como é bem mais importante  (quando possível)  julgar a obra de tal ou tal músico pela sua audição ao vivo do que pelo seu registo em disco.  E, no caso particular do saxofonista-clarinetista, a circunstância de ser esta a terceira situação musical em que os ouvidos do crítico são estimulados pela sua multifacetada personalidade criativa  - após dois concertos de características totalmente diversas no já referido Jazz em Agosto deste ano -  torna porventura muito mais justa e abrangente uma visão analítica da personalidade artística em estudo.

Diga-se, para já, que é mais de «revelação» do que de «reconhecimento» que devemos falar, a propósito das vias criativas que podem descobrir-se em Ken Vandermark.  Neste caso, mais próximo do despojamento de artifícios que tanto  (me)  impressionou no recital do duo Vandermark-Morris na Sala Polivalente do CAM/Acarte do que das alusões à tradição free expressas de forma bem mais radical no concerto realizado no Auditório ao Ar Livre com os suecos do AALY Trio -  talvez possa afirmar-se que o projecto Burn The Incline (em grande parte extraído do álbum do mesmo nome publicado este ano  [2000]  pelo Vandermark 5)  se situa, no plano conceptual, numa posição intermédia, como que fazendo ponte entre aquelas duas diferentes posturas musicais.

Na realidade, pode detectar-se neste projecto como que uma reavaliação sempre projectada para o futuro de certas características matriciais recenseadas em vários jazzes ao longo dos tempos e, mesmo, de certas expressões da música popular urbana que, explícita ou implicitamente, se intrometeram ou confluíram nas suas trajectórias  - sejam certas referências cool ou West Coast, na linha de um Jimmy Giuffre ou aparentados, sejam determinadas apropriações mais batidas da soul music ou do rock (quando não da música para o filme-negro),  sejam ainda as múltiplas influências de profetas das vanguardas como Charlie Mingus ou Eric Dolphy e dos militantes do período free-jazz, de Cecil Taylor a Albert Ayler, bem como da música improvisada de raiz europeia.

Porquê, então, a  (para mim)  clara exclusão de uma linhagem bop na música de Vandermark?  Talvez porque, mesmo numa situação musical declaradamente tonal e num simulacro de improvisações baseadas no velho esquema tema-variações  - levado até às últimas consequências por Charlie Parker e seus contemporâneos e expresso de forma inteiramente diversa e inovadora em Burn The Incline -,  o habitual «espartilho» de uma estrutura formal baseada numa precisa e ciclicamente repetida grelha de acordes é substituído por  (ou transformado em)  um muito mais amplo e livre Ersatz de modulações intuitivas e de arranjos aparentemente instantâneos, mesmo quando servindo composições escritas, de elevado rigor e complexidade.

Mas talvez que a prova mais concludente da modernidade do Vandermark 5 se possa descobrir, entretanto, numa das características mais interessantes e invulgares suscitadas pela fruição em directo da sua música:  a constante capacidade de desarmar o ouvinte  (mesmo o iniciado)  em relação ao «efeito de reconhecimento».  Ou seja, sempre que Vandermark e seus companheiros decidem evocar certos traços do passado no jazz, fazem-no muito mais a partir de uma ideia sempre transformadora, quase por sistema recusando qualquer concessão em termos de identificação com a nossa própria memória auditiva.  Por tudo isto, o registo em CD do projecto Burn The Incline é claramente merecedor da nota mais elevada nesta recensão discográfica que hoje aqui surge na sequência do fabuloso concerto de Guimarães.

Outras achegas oportunas

Se, a propósito do Vandermark 5, é indispensável mencionar também, como protagonistas altamente influentes, dois dos músicos mais criativos que há muito militam nas suas fileiras  - Jeb Bishop (trombone e, na gravação em CD, também guitarra),  a par de Dave Rampis (sax-alto e tenor) -,  importante é também sublinhar o decisivo contributo que os dois restantes membros daquele quinteto  (o contrabaixista Kent Kessler e o baterista Tim Mulvenna)   igualmente trazem a um outro projecto de Ken Vandermark, este para a formação de quarteto que ainda inclui o pianista Kim Baker.

É esta, de facto, a grande novidade do grupo Steam que em 96 gravou o álbum Real Time (hoje menos conhecido, talvez porque originalmente publicado em edição de autor),  agora reeditado com o selo da independente Atavistic.

Na realidade, são raríssimas as oportunidades de ouvir Ken Vandermark em disco com a colaboração de um pianista.  E os próprios traços individuais da estética de Kim Baker - um fraseado livremente inspirado pela articulação do bebop mas sempre flanqueando qualquer reprodução textual dos processos improvisacionais dos anos 40 e seguintes, pelo uso frequente das transgressões aleatórias no plano melódico e harmónico -  contribuem para a surpresa e novidade deste álbum.

Como sempre recheado de temas dedicados a outros músicos conhecidos  - entre os quais Dexter Gordon, Herbie Nichols, Booker Ervin ou Jimmy LyonsReal Time vagueia entre o compromisso tradição-vanguarda de Non-Confirmation e o radicalismo libertário de Explosive Motor, para nos deixar suspensos entre essa balada quase convencional que é A Memory of no Toughts, o swing de Tellefero ou a invocação da música improvisada de raiz europeia em Correlativ Amnesia.

Finalmente, Spaceways Incorporated - um trio formado com Hamid Drake  (bateria)  e Nate McBride (contrabaixo, baixo eléctrico) -  deixa-nos ouvir em Thirteen Cosmic Standards um dos projectos mais recentes de Ken Vandermark:  a evocação da música de dois excêntricos visionários, Sun Ra e sua Arkestra e George Clinton e seus Funkadelic, mais restante pessoal do P-Funk.

Começando pé-ante-pé com a balada Tapestry From an Asteroid, é de imediato o contraste com a violenta batida funk da medley Alice in my Fantasies / Cosmic Slop que estabelece, mais uma vez, a dualidade estética que, de uma outra forma, também fica a marcar este álbum de Ken Vandermark:  o extremado radicalismo da memória de Sun Ra e o drive poderoso das batidas evocativas dos Funkadelic.

Diga-se entretanto, em bom rigor, que apesar da impetuosa cumplicidade de Drake e McBride, permanentemente revolvendo os tempos e os modos sob as enérgicas deambulações de Vandermark, nem sempre a coesão e a homogeneidade são a tónica mais frequente nos encontros  (e desencontros)  entre os três músicos.

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:22
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